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O que a NASA nos ensina sobre construir Startups?

O que a NASA nos ensina sobre construir Startups?

O termo “startup” tem duas definições mais populares: a de Steve Blank, escritor do livro “Startup: Manual do Empreendedor”; e a de seu aprendiz, Eric Ries, escritor do livro “A Startup Enxuta”. Para fins de” fazer uma analogia bacana”, vou usar a definição de Ries:

“Uma Startup é uma instituição humana projetada para desenvolver novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza”

Nesse sentido, há várias instituições humanas que tiveram muito êxito em desenvolver maneiras de lidar com condições de extrema incerteza. Bom, não existe incerteza maior que: levar uma pessoa, com oxigênio limitado e quantidades irresponsáveis de combustível altamente inflamável para um vácuo inexplorado de temperaturas mortais e zero chance de sobrevivência caso algo dê errado. Logo, engenheiros aeroespaciais entendem- aparentemente- de ambientes de extrema incerteza e desenvolveram maneiras de lidar com isso de maneira extremamente eficiente. A NASA é, certamente, a mais conhecida instituição humana projetada para desenvolver meios de explorar o espaço. Portanto, criaram metodologias para avaliar a maturidade de novas tecnologias e prevenir que incertezas se tornem acidentes fatais. Esses métodos são muitos parecidos com os usados na construção de startups- que coincidência, não?

TRLs da NASA

A avaliação por TRLs (Technology Readiness Levels) é um sistema desenvolvido para avaliar as novas tecnologias aeroespaciais. Essa metodologia foi desenvolvida pela NASA, porém, outras empresas começaram a usá-la para avaliar seus processos de inovação. O sistema é simples e os paralelos com startups ficam bem claros. Vamos lá:

TRL1-Observar os Princípios Básicos

Para Startups: Estabelecer Hipóteses (“Tive uma ideia”)

Nesse estágio, tudo não passa de uma ideia, seja colocar um ser humano na Lua, um novo material, um conceito de um Rover ou uma nova Startup. É um bom ponto de partida, mas necessita de evolução porque não sabemos se irá funcionar.

TRL2-Conceito e Aplicação da Tecnologia

Para Startups: Um problema para ser resolvido e um produto/modelo de negócios para resolvê-lo (“Vamos fazer um Canvas”)

Após a ideia, é preciso aplicá-la a um contexto. Nesse estágio, as aplicações são identificadas; “inventadas”. Descobre-se um problema, necessidade ou oportunidade e cria-se um algo capaz de resolvê-lo. Desde um módulo Lunar até um modelo de negócios (o tal “Canvas”), o processo é semelhante. Geralmente, qualquer coisa relacionada a empreendedorismo no Brasil vai só até essa fase- que é importante, porém, básica.

TRL3-Experimentação e Prova de Conceito

Para Startups: MVP de “Baixa Fidelidade” (Produto de papelão e Software de planilha)

Essa fase tem somente um objetivo e a NASA resume isso perfeitamente. O Objetivo dessa fase é:”estudos analíticos para ajustar a tecnologia no contexto apropriado e[...] validar se as previsões analíticas estão corretas”. Qualquer protótipo ou MVP é criado visando isso. Observe que é nesse estágio em que temos o primeiro protótipo e primeiros testes.

TRL4-Validação das Características em Laboratório

Para Startups: Teste Beta com MVP de “Baixa Fidelidade” ("Os Primeiros Clientes")

Essa fase se trata de “colocar todas as peças no quebra-cabeça”. O produto é testado, o modelo de negócios, preços, marketing, venda, suporte, etc. Esse testes são conduzidos pelos primeiros clientes em um ambiente controlado: o teste Beta. Assim, os feedbacks ajudam as startups a ajustar todos os detalhes do modelo de negócios- ou a NASA a construir ônibus espaciais.

TRL5-Validação das Características em Ambiente Relevante

Para Startups: MVP de “Alta Fidelidade” ("Devs, Energéticos e Fones de Ouvido")

Somente nesse estágio, os “devs” (desenvolvedores) viram madrugadas programando cada detalhe e os engenheiros podem começar a construir algo em “tamanho real”. Bom, com tudo que foi aprendido nas fases anteriores, se prioriza as atividades, parte a parte, e se constrói aquilo que era o objetivo desde a TRL1: construir um modelo, sistema ou produto validado.

TRL6-Demonstração de Modelo ou Protótipo em Ambiente Relevante (Terra ou Espaço)

Para Startups: Tração, Marketing e Vendas (Mostrar que está pronto para crescer)

TRL7-Demonstração de Protótipo no Ambiente Espacial

Para Startups: Crossing The Chasm (Mostrar que pode conquistar o mercado)

Bom, eu resolvi falar sobre as fases 6 e 7 como uma só. O motivo é: essas fases podem ser consideradas o “Vale da Morte” para a maioria das startups. Depois dos primeiros clientes, é preciso demonstrar que consegue-se conquistar um segmento. Depois do primeiro segmento, é preciso demonstrar que consegue-se conquistar segmentos cada vez maiores. Aviso: essa parte é tão complicada quanto levar um protótipo para o espaço.

TRL8-Sistema Completo e “Qualificado para Voo” através de testes e demonstrações (Terra ou Espaço)

Para Startups: Product Market Fit (“Deu Certo”)

Passando pelo vale, demonstra-se que, finalmente, “deu certo”. Hora de escalar. Geralmente, é nessa fase em que investimentos gigantescos acontecem (Série A, B, C, D, aqueles que você ouve por aí).

TRL9-Sistema Completo e “Provado em Voo” através de Êxito nas Missões

Para Startups: Escalar Rapidamente ("Pousar na Lua")

Bom, agora é crescer o mais rápido possível. É meio autoexplicativo. O mercado já é comprovado, assim como o produto e o modelo de negócios. A tecnologia- ou negócio- está maduro e pode ser, finalmente, utilizado.

O que isso nos diz sobre startups?

A principal razão de ter feito essa comparação é simples. Muitas vezes, vemos fundadores: que gastam muito dinheiro para ter um produto completo antes do lançamento, que escondem a ideia, que demoram anos sem validar com o cliente, que constroem um produto sem ter um modelo de negócios, que ignoram clientes, que perdem semanas programando novas funcionalidades que os seus clientes nunca pediram. Esses erros são fatais.

Mas, quando se coloca a exploração espacial como analogia, é mais tangível entender a loucura que isso representa. Você investiria em uma tecnologia que não tem aplicação? Você entraria em um ônibus espacial que nunca sequer saiu do chão? Iria pra um lugar sem oxigênio com uma tecnologia que funciona somente em um canvas? Levaria combustível altamente inflamável para propulsão de uma nave que pode explodir? Acreditaria em um computador de bordo com algoritmos que funcionam “na teoria”?

Se as respostas forem negativas, então não construa sua startup do mesmo jeito.

Startups

The Business Change
Gabriel Henrique Dalmolim
Gabriel Henrique Dalmolim Seguir

Economista, curioso e entusiasta por tecnologia.

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