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Bitcoin: A moeda no ecossistema digital

Bitcoin: A moeda no ecossistema digital

Capítulo 1: Uma velha máquina: Qual o futuro da moeda?

As moedas digitais, especialmente o Bitcoin, são o assunto do momento por serem inovadoras e com potencial de mudar todo o sistema financeiro mundial. Opiniões e controvérsias à parte, entender os conceitos econômicos, técnicos e o funcionamento do Bitcoin podem ajudar a melhor entender seus benefícios e desafios. Nessa série em três capítulos, vamos abordar alguns pontos essenciais da maneira mais direta possível. Nesse primeiro capítulo, vamos falar sobre a evolução da moeda.

 

Um sanduíche paleolítico

Você acha simples produzir um sanduíche sozinho? Talvez, fazer o próprio pão e a própria carne não seja tão fácil assim. Em 2015, Andy George passou 6 meses- você não leu errado- para conseguir produzir um sanduíche sozinho. Pior, gastou $1.500 dólares- juro que é sério- para produzir seu primeiro sanduíche. Ele precisou: plantar trigo, retirar sal da água do mar, matar uma galinha, ordenhar uma vaca, etc. Isso mostra uma coisa muito importante: desde o princípio, o ser humano precisa realizar trocas. Produzir tudo sozinho é uma tarefa hercúlea- e extremamente cara. O ser humano descobriu, ainda no tempo das cavernas, que viver em uma sociedade de trocas é o grande segredo para sobrevivência e melhor qualidade de vida, que se especializar em produzir somente alguns itens e trocá-los por outros era mais eficiente e produtivo- Adam Smith depois chamou isso de divisão do trabalho. Assim, surgem as primeiras trocas econômicas e, nesse cenário, a moeda se torna necessária.

 

Moeda ex Machina

Em 1848, John Stuart Mill escreveu a minha definição favorita para moeda:

“É evidente[…] que a mera introdução de um meio particular de trocar certos bens por outros[…] não afeta o caráter essencial das transações. Não é com moeda que as coisas são realmente compradas. A renda de ninguém- exceto de quem trabalha nas minas de ouro e prata- deriva dos metais preciosos. […]. Nada pode haver de mais intrinsicamente insignificante numa sociedade do que a moeda; exceto como mecanismo capaz de poupar tempo e esforço. Ela é uma máquina que faz de maneira mais rápida e confortável aquilo que poderia ser feito sem ela; e como muitos outros tipos de máquina, só exerce influência própria e independente quando deixa de funcionar.” [1]

Mill observa que os mecanismos monetários auxiliam a sociedade a operar num nível de eficiência maior; a moeda nos ajudou a tirar nosso sanduíche da era paleolítica. Como qualquer mecanismo, a moeda precisa de condições para continuar operante- até porque o custo social dessa falha operacional é grande. Ao longo da história, a má operação desse mecanismo levou a crises de produção, inflação e desemprego.

Portanto, a moeda é uma máquina que evolui ao longo do tempo, que fica desatualizada, que é substituída. Portanto, para analisar se o Bitcoin- ou as criptomoedas de um modo geral- pode substituir nosso atual sistema monetário, precisa-se entender quais os principais problemas que precisam de uma resolução. Quais são esses problemas?

 

Bancos Centrais, Bancos e governos

Historicamente, instituições ajudam a diminuir a incerteza e risco nas transações. Desde instituições informais, como a reputação, até instituições formais, como constituições federais ou contratos, são meios de diminuir o custo de transação entre pessoas. As transações podem ser padronizadas, a reputação dessas instituições diminui a incerteza; sabemos que a “regra do jogo” não irá mudar.

Contudo, essas instituições ainda não são perfeitas. Há erros, mudanças de regras, fraudes, corrupção, taxas altíssimas, etc. Contudo, ainda somos altamente dependentes de tais instituições e das regras elaboradas por essas. Portanto, essa dependência ainda representa um risco. Em países subdesenvolvidos ou emergentes, esse risco é ainda maior, porque as instituições não são tão sólidas e confiáveis como nos países desenvolvidos. Esse é, com certeza, um dos principais entraves no desenvolvimento desses países. Logo, solucionar os problemas de dependência de terceiros e de confiabilidade é o próximo passo para termos uma máquina monetária mais eficiente? Essa é, ao menos aparentemente, a proposta do Bitcoin.

Categorizando os problemas do atual sistema monetário e financeiro, podemos dividi-los em dois grupos: as transações- dependentes dos bancos comerciais e de investimento como intermediários- e as regras do jogo- leis, bancos centrais e a própria moeda nacional que são geridos pelo Estado. Portanto, é necessário abordá-las e explicar como as criptomoedas podem representar uma evolução do sistema monetário atual, como o Bitcoin e a Blockchain podem mitigar esses problemas.

No próximo capítulo, vamos falar sobre a Blockchain, o sistema inovador que permitiu a existência de uma moeda totalmente digital. Como um livro-razão digital e totalmente público aliou, pela primeira vez na história, a moeda com todo o sistema de pagamentos e bancário? Como a Blockchain pode funcionar de maneira totalmente descentralizada e sem uma instituição como um banco ou governo como intermediador? O que são mineradores? Todas essas questões serão abordadas.

[1] MILL, John Stuart. Principles of Political economy. [1848]. New York: Augustus M. Kelley, 1969, p. 485–486

 

Transformação de negócios

The Business Change
Gabriel Henrique Dalmolim
Gabriel Henrique Dalmolim Seguir

Economista, curioso e entusiasta por tecnologia.

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