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Bitcoin: A moeda no ecossistema digital

Bitcoin: A moeda no ecossistema digital

Capítulo 2: Blockchain: A maior invenção desde a internet?

Nesse capítulo, falaremos sobre a tecnologia mais importante do Bitcoin: a Blockchain. Após entendermos os problemas da dependência de terceiros e confiabilidade da moeda (clique aqui para ler o capítulo 1), abordaremos como a Blockchain irá– ou pretende- solucioná-los.

Moedas digitais sonham com carneiros elétricos?

Em 1968, Philip K. Dick escreveu seu conto “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (Androides sonham com carneiros elétricos?) que inspiraria o filme “Blade Runner”. Nesse universo, seres humanos artificiais, os chamados “Replicantes”, são criados para executar trabalhos perigosos e servis nas colônias mais distantes da galáxia. Contudo, após um motim contra seus criadores, são banidos da Terra. Portanto, cria-se uma força policial para caçar qualquer replicante que se atreva a voltar para a terra. Esses policiais, ao terem qualquer suspeita, fazem um rigoroso teste com a suposta pessoa- ou replicante- para descobrir sua real natureza: um ser humano ou uma réplica? Com as moedas digitais, o problema é o mesmo. Em um mundo digital, as transações não são tão simples. No mundo físico, existe uma cédula de alguma moeda. Quando transacionada, a cédula sai de uma mão para a outra fisicamente. Contudo, no mundo digital, a cédula é um arquivo. Esse arquivo digital pode ser copiado, reenviado, compartilhado, etc. Afinal, é somente um arquivo, bits que podem ser replicados. Era impossível diferenciar o arquivo original, verdadeiro e autêntico do falso e copiado. Como saber se continua existindo somente um arquivo? Esse é o chamado: “problema do gasto-duplo”. Assim como na temática do filme, uma vez criadas, não há nada nas moedas “replicadas” que seja diferente das autênticas, é possível que ambas sejam válidas? Bom, isso pode até ser verdade com androides, mas não com moedas.

Blockchain: a revolução

A primeira solução foi confiar as transações digitais aos bancos- como vimos no capítulo 1. Bom, já sabemos que essa pode não ser a melhor solução. Portanto, cientistas e pesquisadores começaram a esboçar diferentes ideias sobre como melhorar a estrutura do nosso sistema bancário e monetário. Até que, em 2008, um paper com ideias totalmente diferentes foi publicado: “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System”. O autor era Satoshi Nakamoto e, até hoje, não se sabe se esse nome é um pseudônimo, uma pessoa real, um grupo de pessoas, etc. Contudo, suas ideias criaram uma verdadeira revolução: o Bitcoin. Voltando a nossa analogia aos Replicantes de “Blade Runner”. Uma das perguntas possíveis: Androides tem pais ou avós? Uma linhagem de sangue que pode ser localizada? Imagino que não- tal reviravolta seria bem inesperada. Portanto, é possível diferenciar quais são os seres humanos de verdade dos replicantes descobrindo sua genealogia? Teoricamente, sim. Contudo, precisaríamos de todo o histórico de DNA de todas as pessoas com possibilidade de ser acessada por todas as pessoas. Assim, uma parte do DNA da pessoa referencia o DNA de seus pais, dos pais referenciam aos avós e assim por diante. Somente com uma cadeia genealógica longa o suficiente seria possível provar a sua autenticidade. Além disso, seria necessário que cada pessoa tivesse uma cópia desse histórico, porque assim ninguém poderia “hackear” o centro de dados e burlar o sistema. Bom, uma blockchain funciona de maneira análoga a isso.

A Blockchain do Bitcoin é um registro público de todas as transações de bitcoins que pode ser verificado por qualquer usuário. Um livro-razão público que armazena todas as informações de todas as transferências na rede, como: data, hora, remetente e destinatário das moedas. Foi desenvolvida para resolver o problema do gasto-duplo sem necessitar de um agente verificador centralizado. Se trata de um sistema ponto a ponto (Peer-to-Peer ou P2P) em que transações são realizadas diretamente entre usuários. Cada usuário tem uma carteira- ou mais de uma- para guardar seus bitcoins. Essas carteiras podem ser armazenadas em aplicativos, carteiras de hardware, ou totens físicos- ironicamente, até em uma folha de papel. O saldo dessas carteiras é armazenado na blockchain. A verificação de cada transação é realizada por milhares de usuários- os mineradores, cada um com sua própria cópia do livro-razão público com o histórico de transações. A transação é verificada pelos mineradores para comprovar que há saldo disponível. Como cada usuário tem uma cópia do histórico, é praticamente impossível que algum hacker consiga alterar os registros de transação- já que seria necessário “hackear” a maioria dos usuários na rede. Assim, a blockchain aumenta de tamanho cada vez mais, permite que o Bitcoin seja 100% rastreável e cada vez mais seguro. Portanto, a imutabilidade do conteúdo é assegurada por um mecanismo de consenso de rede entre todos os verificadores. O mecanismo, complexo e extremamente revolucionário; as possibilidades, infinitas.

A cada dez minutos, aproximadamente, um bloco de transações é minerado (verificado) e anexado a blockchain. Cada novo bloco tem um hash, que é um código que contém informações criptografadas do bloco anterior e das novas transações efetuadas. Assim, esses blocos de informação formam uma cadeia de informações registradas cronologicamente- por isso o nome de blockchain. Portanto, devido a interdependência de cada bloco com o código do bloco anterior, é praticamente impossível alterar as informações ao longo dessa cadeia. Por exemplo, para um hacker conseguir fraudar a blockchain é necessário:

- “Hackear” mais de 50% dos mineradores para tomar o controle da rede;

-Alterar um bloco distante o suficiente do atual para que as suas transações não sejam rejeitadas, já que as transações só serão aceitas quando a origem da moeda é conhecida;

-Alterar todos os blocos até alcançar o bloco que ainda não foi minerado para poder realizar qualquer transação.

Portanto, considere impossível fraudar a blockchain; a capacidade de processamento necessária para isso é impressionante. Isso explica o fato de, desde sua origem, em 2009, o Bitcoin e sua blockchain nunca foram fraudados. Isso é inédito para qualquer sistema bancário ou monetário já implantado na era digital. É um sistema mais estável, mais seguro e menos burocrático do que o sistema bancário tradicional. A blockchain elimina a necessidade de uma instituição formal, de uma terceira parte que controle o sistema para seu perfeito funcionamento. A blockchain é, por si só, uma instituição autônoma e descentralizada em que não há interferência humana, conflito de interesses ou serviços diferenciados para cada tipo de cliente. É como um banco mantido pelos seus próprios usuários, onde todos são iguais. As possibilidades de aplicação dessa tecnologia são infinitas: cartórios, bancos, governos, bolsas de valores, cartões de crédito, patentes, direitos autorais, etc. Não é à toa que muitos considerem a blockchain como a maior invenção desde a internet- e com razão. Todos os negócios ou áreas da economia serão impactadas nos próximos dez anos por essa tecnologia.

Talvez, o único ponto negativo da blockchain seja: se houvesse um sistema parecido com esse no mundo de “Blade Runner”, talvez o filme não fosse tão bom.

No próximo capítulo, veremos como o Bitcoin atua como autoridade monetária. Como funciona a emissão de novas moedas? O que tem de errado com os bancos centrais para que queiram substituí-los? Como as teorias de um ganhador do prêmio Nobel influenciaram o modo como o Bitcoin foi pensado? A quantidade de bitcoins é limitada em 21 milhões de unidades? O que acontece quando atingirmos o limite? É possível imaginarmos uma economia que tenha como principal moeda o Bitcoin? Todas essas questões serão abordadas.

Bônus para os curiosos:

Uma demonstração visual do funcionamento da Blockchain: https://www.youtube.com/watch?v=_160oMzblY8&feature=youtu.be

O paper original de Satoshi Nakamoto traduzido para português: http://www.usandobitcoin.com.br/files/BitcoinPaper_Portugues.pdf

Um projeto muito criativo que usa uma blockchain para vender músicas:

https://www.voise.com/

A criptomoeda Ethereum: que permite desenvolver sua própria blockchain, smart contracts e DAOs (Descentralized Automated Organizations):

https://www.ethereum.org/

 

Transformação de negócios

The Business Change
Gabriel Henrique Dalmolim
Gabriel Henrique Dalmolim Seguir

Economista, curioso e entusiasta por tecnologia.

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