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Snapchat: como destruir valor e ajudar os concorrentes

Snapchat: como destruir valor e ajudar os concorrentes

A vários anos, o Facebook reina como a maior rede social no mundo. Contudo, isso não quer dizer que não existam concorrentes. Nos últimos anos, outras redes sociais surgiram com muita força: WhatsApp, Instagram e Snapchat, etc. Dessas, o Facebook adquiriu quase todas. A Snapchat, quando recebeu uma oferta de compra pelo Facebook, no valor de US$ 3 bilhões , recusou. Evan Spiegel, cofundador e CEO da Snap Inc., talvez seja o empreendedor mais teimoso da atualidade. Jovem, gênio, filantropo e bilionário, Spiegel acredita que conseguirá levar o Snapchat ao topo sem a ajuda de ninguém. Em 2016, a Google ofereceu US$ 30 bilhões, segundo fontes, para adquirir a empresa- a Google nega até hoje, mas eu também negaria se recusassem minha oferta. Em março de 2017, o Snapchat abriu capital (IPO) na Nasdaq, mostrando que estava disposto a encarar o gigante Facebook. Parecia um momento promissor, mas não foi isso que aconteceu.

O Desastre

No momento que escrevo isso, as ações da Snap Inc. valem menos de um terço do que valiam na abertura de capital (Ouch!). É, não deu certo. Toda essa maré de azar se deve a, principalmente, duas coisas: Instagram Stories e um dos piores “redesigns” da história do planeta Terra.

Instagram Stories

Lançado em agosto de 2016, os “stories” do Instagram são uma cópia descarada da principal funcionalidade do Snapchat. Os usuários, que geralmente possuíam as duas redes sociais, acabaram migrando parte de seus stories para o concorrente. Não bastasse só isso, o Instagram popularizou ainda mais o formato por ter um demográfico maior que o Snap- não vou falar que o Snapchat é cheio de adolescentes, mas meio que é verdade. Ou seja, seu principal concorrente “rouba” usuários de você e leva a sua funcionalidade para o público que você sempre quis conquistar- aquele público que não é adolescente e tem dinheiro para atrair anunciantes. Em junho de 2018, os stories do Instagram tinham 400 milhões de usuários diários ativos, mais que o dobro do SnapChat. Um jeito amargo de lembrar que, não importa o quão única seja a funcionalidade, tudo que não é humano pode ser copiado. Um lembrete de que, se seu concorrente tem o “bolso maior”, precisa-se compensar isso com decisões cirúrgicas e constante inovação.

Redesign: para lembrar que tudo que está ruim pode piorar

Apesar das dificuldades, o Snap continuava com seus fiéis (adolescentes) usuários. Porém, tudo pode piorar. Após um redesign que visava “separar o social da mídia”, o Snapchat juntou o “chat e o snap” em uma única sessão do aplicativo e separou os criadores de conteúdo profissionais e “influencers do Snap” para outra aba, o Discover. Resultado: um design contra intuitivo e com confusão entre chat e snaps. Inclui-se, também,um Discover com sugestões de pessoas estranhas que você nunca queria ter visto e os criadores que você seguia previamente - antes juntos com os stories dos seus amigos - se encontravam  perdidos no meio de um emaranhado de inutilidades. Confesso que, pessoalmente, ainda não conheci nenhum usuário que tenha aprovado as mudanças. Além disso, os criadores de conteúdo- empresas e outlets de mídia que usavam o Snapchat para promoção- viram uma queda significante de público e resolveram diminuir ou encerrar suas atividades na rede social. O próprio Spiegel, admitiu que o redesign foi apressado e que deveriam ter testado designs mais profundamente para evitar a frustração de seus usuários. Como ironiza a TechCrunch :”Spiegel parece ter aprendido uma valorosa lição sobre a importância do teste A/B”. Um lembrete de que é o cliente que decide se um design, ideia, produto ou modelo de negócios é bom. Pode-se contratar o melhor designer, engenheiro ou executivo, mas somente o cliente pode validar a relevância de tudo isso. O resultado do redesign foi uma verdadeira diáspora de usuários extremamente danosa para a empresa.

Luz no fim do túnel?

Ainda famoso- e agora também infame-, o Snap ainda tem solução? Resumidamente, sim. Apesar dos erros, essa sequência de tombos geraram muitos aprendizados traumáticos, porém, importantes.

Como disse o próprio Evan Spiegel em um comunicado interno:

“Seu melhor amigo, em dada semana, contribui para 25% de todos os Snaps enviados [para sua conta] [...].Achar melhores amigos é diferente de achar mais amigos, nós precisamos pensar em novos jeitos de ajudar as pessoas a encontrar quem elas valorizam mais”

Era, exatamente, na comunicação entre melhores amigos que o Snapchat encontrava sua vantagem. O Facebook tem dificuldades até hoje em aproximar as pessoas com qualidade e relevância (também conhecido como: mostrar vídeos de animais e piadas do seu primo do Acre ao invés das atividades de seus familiares e amigos próximos). Nesse sentido, mesmo copiando as funcionalidades, os stories do Instagram são muito mais generalistas, devido ao fato de que seu alcance abrange todos os seus amigos- um “estilo Facebook de ser”- ao invés do estilo intimista, que era onde se encontrava o valor do Snapchat.

Talvez, não seja tão tarde e o Snapchat consiga reconquistar seus usuários. Talvez o Instagram estrague tudo- já que seus fundadores originais deixaram o Facebook recentemente-, talvez o Facebook convença sua “tia Gertrude” que ela deveria ter um Instagram e acabe estragando tudo. Evan Spiegel pode ser até considerado teimoso por ter recusado todas as ofertas para vender sua empresa- por mais milionárias que fossem. Porém, justamente por essa teimosia, eu duvido seriamente que ele se dê por vencido; o Snapchat brigará até o final.

Transformação de negócios

The Business Change
Gabriel Henrique Dalmolim
Gabriel Henrique Dalmolim Seguir

Economista, curioso e entusiasta por tecnologia.

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